14.6.16

Um mar de muros [na Enfermaria 6]

Queria recordar com toda a força de que fosse capaz. Repor aqui à frente o impossível rigor de uma imagem tão parada, tão feita num certo dia, numa parte pequena da hora, de passagem, passando. Há dias vi de longe o mar, recortado azul preto entre montes e casas brancas. Foi de longe, mas não tanto. Isto é, nunca fui, nunca estive ali, e vi o mar como se vê um desconhecido cruzando connosco a rua, todos os dias, e lhe percebemos um traço do rosto, depois outro. Muitas casas, vidros e pedras, ferros, papel. Mas dava para perceber aquela mancha esbatida lá longe, num escuro diferente daquele que a circundava como um presépio abandonado, que só podia ser o mar. Passo ali muitas vezes, mas não recordo assim escuro e lento o mar, não o tom daquela maneira, entre pedaços de terra e cimento, como se fosse sempre a subir e subindo muito até lá poder chegar. Tento lembrar em quantas e tão diferentes circunstâncias passei ali daquela forma, ou semelhante, mas não posso. Lembro repentes, caras de pessoa, nomes, o corpo quase igual. O passo é outro, diz que ninguém anda duas vezes. E o traço dos montes mexe também com o das casas, não consigo. Eu não tinha visto assim o mar. E pude reconhecer também a cabeça de um homem, cabeça escura, baixa, a tarde encolhia-se já sobre a noite ou isso parecia. [...]

Texto completo na Enfermaria 6

6.6.16

Sobre SUPERTUBOS, por Víctor Gonçalves

[...] 8- É preciso “ver torto” e ler torto, são poemas em movimento, “mexem bastante”. Não nos levarão à “terra do nosso regresso”. Como podemos fiar-nos num verso que diz “sopra tão limpo cruel o fabuloso”? Mesmo com “pés gigantes e bronzeados”. Talvez as frases sirvam apenas de contraste ao “silêncio crepuscular”, o corpo é que tem de se bambolear à procura de um equilíbrio que evite uma e outra vez quedas na calçada, isto até chegar ao baloiçamento do barco (ou à biomecânica do ciclista em dia de montanha), mar a toda a volta, por cima e por baixo, esse mar infinito sem fronteiras que interrompam o viajante. [...] 

"Do vigor irremediável da presença nómada", texto de Víctor Gonçalves lido na apresentação de Supertubos | poemas 2005-2015, agora disponível na página web da Enfermaria 6: aqui

7.5.16

HORIZONTE MONTADO, do LAPELIPOSA

[foto de Clara Röhrig]

"A sala de teatro recorda às vezes esse barco de um sonho montado. Entramos todos juntos, tremendos, entramos como o oceano imagina. Vamos começar uns com os outros, no salto que o corpo quer aprender, e empurramos, empurramos uns pelos outros. A magia vai com a armação do conjunto, é ilha catedral na intuição do horizonte: terra de gigantes a viagem começada, o carnaval da fala. E então, por isso, nesse tempo possível, poder acontecer." Mais informação, aqui